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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Colcha de retalhos



O homem se faz de pedaços,
Emendas e retalhos,
Cosidos com fios de nylon
De delicada precisão;

Misto de informação genética:
A cara do pai,
O gênio da mãe;
Personalidade moldada
A lambidas e a patadas,
Vindas de todos os lados:
De dentro, de fora, de cima, de baixo, do lado
E que com o tempo só fazem se multiplicar

Empurra daqui,
Espreme de lá,
Pontilha vitórias,
Cola derrotas,
Borda com amigos,
Enfeita com filhos,
Lava com lágrimas,
Engoma com sorrisos,
E está pronta a vasta,
Colorida e caótica colcha de retalhos,
Ou a história de uma vida,
Se assim preferir chamar!

domingo, 4 de setembro de 2011

O AMOR DE CADA UM


Entender o inexplicável, talvez seja esse o desafio que tantos amantes têm que enfrentar ao fim de uma história de amor. Teria sido realmente amor, sentimento que sobrevive de demoras, paciência, pausa, todo aquele arroubo, o encontro de corpos, juras, sorrisos, acenos, dizeres, ou teria sido apenas paixão, com seus rituais de pressa, sofreguidão, impaciência, avidez que não resistiu à passagem do tempo, à travessia e perdeu-se no caminho?
Quando somos jovens, questões dessa ordem passam ao largo, não nos questionamos sobre o quanto são trabalhosas as relações de amor, o convívio diário, as diferenças que incomodam. Não atentamos que no dia-a-dia pequenos gestos, pequenos detalhes podem mudar a ordem das coisas, fazer a diferença. Desconhecemos que o cotidiano tem sua ritualidade, suas díspares e distintas faces, que além da face comum, normal: o andar, o dormir, o acordar e assim por diante, tem a face que transpõe os limites dessa normalidade, suavizando, adocicando todas essas etapas, inserindo um viés poético a essas frugais atividades, conferindo a elas novos significados. Sem esse entrelaçamento, sem esse enlevo unindo as duas pontas, as relações tendem a azedar, a se tornarem amargas, acinzentadas, até findarem.
Quantas histórias de amor se perdem na travessia...
Seriam nossas escolhas as grandes vilães? Não escolhemos então o caminho da felicidade para nossa vida?
Assim, no embalo de tantas indagações, a nossa memória, fonte inesgotável de reminiscências, continua sua busca, sua andança, consumindo-nos sem apontar um norte para entendermos o que para nós não tem explicação plausível.
A ausência, o distanciamento e os silêncios eloquentes talvez sejam a raiz de tantos desencontros. O comedimento das nossas expectativas com as relações é uma necessidade de sobrevivência; comumente esperamos uniões maravilhosas, absolutas, perfeitas, esperamos possuir o parceiro em sua integralidade e nesse esperar e ansiar constante e quimérico talvez tenhamos perdido a noção do respeito à liberdade e às peculiaridades de cada um. Talvez não tenhamos atentado que seremos sempre dois, ser um só é utopia, ilusão, essa idealização ingênua é tão segura e estável quanto uma folha ao vento.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

SABEDORIA DO TEMPO


Partilhar divagações, sonhos, anseios, entregar-se a devaneios é uma experiência única e extremamente prazerosa. Imagens surgem, assumem formas, fazendo a viagem de volta ao tempo que não é mais nosso, que não é mais real. A saudade nos faz voltar.
Felizes, retornamos aos encantos de tempos idos, sentimentos em construção passeiam por lembranças que insistem em morar dentro de nós: juventude, beleza, descompromisso, inocentes encontros de amor; relações que atravessam incólumes os solavancos da vida. Nesses momentos, se pudéssemos, acessaríamos a senha, o código que traria de volta esse tempo povoado por doces lembranças que convencionamos chamar "primeiro tempo". Páginas e páginas poderiam ser escritas sobre ele, um livro, quem sabe? E o tempo que o sucedeu, o presente, o tempo real? Nesse ponto, as divagações nostálgicas cedem lugar ao mundo dominado por jovens que já nasceram cibernéticos e virtuais, incansáveis na profusão de descobertas, intangíveis para quem tem tantas lembranças, tanta história para contar; inovações que nos deixam deslocados, perdidos, perplexos, isolados.
Embora paradoxalmente tenhamos consciência que a superação é algo que se impõe, que inclusão é a palavra-chave, quanta dificuldade isso representa na prática, quantas tentativas frustradas, quantos retrocessos... Talvez tenhamos uma carta na manga para sair desse impasse, aliás, não falo mais "talvez", mas "certamente" há algo que, modestamente, temos de sobra: sabedoria. A sabedoria como expressão plural, como sinônimo de força, persistência que não arrefece no seu afã de libertar, de soltar amarras, de nos tirar do limbo, de nos tornar vitoriosos, agindo principalmente naqueles em que as lembranças, correndo soltas e fagueiras, vislumbram certa bifurcação nesse caminho, é o mundo real batendo em nossa porta.
Saber usar a sabedoria como instrumento, como ponte nesse sentido amplo, plural, é igualmente forma de inclusão num mundo que, mesmo virtualizado, também é nosso. Tudo isso, claro, com empenho, esforço e persistência, "quebrando pedras e plantando flores", como falou Cora Coralina, poetisa que se lançou na literatura aos 76 anos de idade.

terça-feira, 5 de julho de 2011

BRANCO DIVÃ


Quando escrevo,

Da alma tiro o mal de que padeço



Divido com as linhas a alegria,

A dor, a saudade e o apreço.



Relato a vida que vejo,

Confesso segredos.



Quando escrevo,

Sei que estou viva,

Que ainda me pertenço,



Que a mente ainda trabalha

E de certo espraia um pouco de mim, 

Deixando registro,

Para um dia ser lido,

Quando nada mais houver a ser dito,

Ao menos por mim.



Que este dia tarde a chegar,

Esteja bem longe o fim,

Para que nesse branco divã ainda possa lançar mais do vi

Senti,

E não vivi.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

FELICIDADE, ONDE VOCÊ ESTÁ?


Descobrir os caminhos para uma vida feliz é um sonho que persegue a humanidade desde sempre. A felicidade é o grande alvo, mas buscá-la em sua forma plena, total, sem percalços, transtornos ou contrariedades é utópico. Todos nós sabemos. Ela só deixa de ser utopia quando entendemos que felicidade não implica ausência de tristeza. Elas coexistem. Somos felizes e tristes ao mesmo tempo, temos sim, momentos felizes e momentos tristes, que se alternam no curso de nossa existência; nada se eterniza em seu entorno, em suas formas, tristezas e sofrimentos hoje, alegrias e prazeres amanhã.
Há momentos, contudo, em que essa falta de harmonia, esses desacordos, assumem contornos tão absurdos e limítrofes, que nos fazem mergulhar na busca pelo sentido, pela essência da vida, é o momento em que a alma se sente traspassada, penetrada profundamente, é a hora das dores lancinantes, das tragédias que ceifam vidas de muitos e inviabilizam a tantas outras. É nesses momentos que experimentamos a dor e a tristeza em toda sua dimensão, que nos sentimos incapazes de romper a escuridão e reencontrar a luz e ainda crer ser possível gozarmos de momentos de felicidade nessa nossa fragmentada e volátil existência.
Resolver tantas contradições é impossível. Como conviver com os sonhos despedaçados, as perdas irreparáveis, os projetos abortados? Somos impotentes diante de tantas indagações e levados a descrer de tudo, inclusive da existência da felicidade. Aprender a viver com tantas vicissitudes e revezes seria um caminho, descobrindo a criatividade que tantas contradições nos sugerem. Entender que os fracassos não são definitivos, que há muitas possibilidades esquecidas dentro de nós: força, esperança, coragem, fé, e assim seguir reinventando a vida, reconstruindo nossa história, insistindo em buscar a felicidade, mas sem utopias, sem ilusões românticas baseadas na crença em um estado de felicidade eterno e inabalável.
Todas essas discrepâncias nos fazem ver de perto os desdobramentos de tantos desencontros e desvios rumo à felicidade. Mas é nesse momento de percepção do poder transformador que pode se operar dentro de cada um de nós, que podemos experimentar a beleza e a exuberância da existência; é nesse cenário que devemos nos reerguer, sem jamais perder de vista a consciência da nossa fragilidade ante a pujança e imperatividade do destino (ou de Deus, como queiram), que continuará, no seu vagar, tramando contradições : encontros e desencontros, alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, chegadas e partidas... Quem sabe algum dia aprenderemos a nos comprazer com o caminhar - com o caminho - e não apenas com a alegria efêmera da chegada.